Thursday, November 17, 2005

PROCESSOS DE EROSÃO ACELERADA NA REGIÃO DEMARCADA DO DOURO
Tese de Mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto no âmbito do Curso Integrado Pós-Graduado em Gestão de Riscos naturais (2005)


A paisagem cultural do Alto Douro Vinhateiro, caracterizada pelas suas vertentes acentuadas, pela dureza do xisto e pela escassez da água durante os meses secos é a expressão de uma relação singular com os elementos naturais. Segundo o projecto de candidatura apresentado à UNESCO, o seu carácter é determinado por uma sábia gestão da escassez de solo e água e pelo elevado declive do terreno, e resulta da observação permanente e intensa, e do conhecimento profundo proveniente de uma experiência de séculos, da adaptação da cultura da vinha a situação tão adversa.
Neste trabalho pretendeu-se, essencialmente, compreender a relação existente entre as técnicas de armação da vinha utilizadas na Região Demarcada do Douro (RDD) e os processos de erosão hídrica dos solos. As técnicas de armação da vinha em vertentes que foram introduzidas nos últimos trinta anos procuraram, por um lado, responder às condições naturais desta região, como por exemplo os fortes declives das vertentes, as características litológicas e os problemas de erosão e, por outro lado, às necessidades do homem, quer de ordem económica, quer com vista à modernização técnica, no sentido de melhorar as condições de trabalho e de rentabilizar os investimentos realizados. Nos anos 70 e 80, adaptaram-se e desenvolveram-se dois novos sistemas de implantação de vinha: terraços com taludes de terra (Vinha em Patamares) e a denominada Vinha “ao alto”, igualmente sem paredes.
Embora uma observação mais atenta tenha já demonstrado que em declives mais acentuados, ambos funcionam mal, aumentando o risco de erosão hídrica, ravinamentos e de movimentos em massa, experiências de campo realizadas com o intuito de quantificar a erosão nos diferentes sistemas de armação que coexistem actualmente em toda a Região Demarcada do Douro, permitiram-nos concluir que as vinhas em patamares, por não se encontrarem protegidas, nem por cobertura vegetal nem por uma boa cobertura pedregosa, ficam mais vulneráveis ao impacto da precipitação, apresentando valores de erosão hídrica 51,9 vezes superiores à das vinhas tradicionais. Além disso, a vinha em patamares é também aquela em se observaram mais ravinamentos.
Perante a manutenção da tradição e os novos desafios da modernidade, a Região Demarcada do Douro tem de encontrar um rumo. É o futuro da mais singular de todas as paisagens humanizadas de Portugal que está em risco. “O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. (…) Um poema geológico. A beleza absoluta».
SOIL EROSION IN REGIÃO DEMARCADA DO DOURO (PORTUGAL)
Tese de Mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto no âmbito do Curso Integrado Pós-Graduado em Gestão de Riscos naturais (2005)
Alto Douro Vinhateiro Cultural landscape, characterized by its accented slopes, by the schist hardness and water scarcity during estival months shows a singular relationship with natural elements. According to the candidature project to UNESCO, its character is determined by a wise management of the soil and water scarcity and result of the constant and intense observation and knowledge built during centuries of experience, of the adjustment of the vineyards to such hard conditions.
This work is an attempt to understand the relationship between the structures of the vineyards used in Região Demarcada do Douro and the water erosion of the lands. The structures used in this region in the last Thirty years, were possible way to take advantage of the natural conditions of the landscape, for example the slopes, the lithological characteristics and the erosion problems. On the other hand they try to respond to men’s needs – economically, technically – in order to improve the work conditions and maximise the investments already done. In the 70’s and 80’s two new systems of vineyard plantations were adapted: terraces without embankment (vinha em patamares) and what we call “vinha ao alto” equally without walls.
Although a careful observation has already showed that in accented slopes both structures don’t work very well, increasing the hazard of water erosion, gullies and mass movements. Field experiences made with the purpose of quantifying soil erosion in the different vineyard structures, existing in all region, allowed us to conclude that vineyards in terraces, because they aren’t naturally protected by vegetation or covered by stones, get more vulnerable to the impact of precipitation and show a 51,9 erosion rate higher than traditional vineyards. Besides that, vineyards in terraces are the ones which we can observe more gullies.
The Região Demarcada do Douro has to find own way if it wants to keep up with the technological development and maintain its tradition. It is the future of the most singular man-made Portuguese landscape that is in risk.

3 comments:

Márcio Martins said...

REGIÃO DEMARCADA DO DOURO: UMA REGIÃO EXPOSTA AO RISCO

Nas últimas décadas, assistimos na Região Demarcada do Douro a um ponto de viragem na atitude do Homem na sua relação com o meio natural.
Do ponto de vista demográfico, temos assistido a um contínuo envelhecimento e progressiva diminuição da população residente. Entre 1960 e 2001 o total de população dos concelhos que integram a RDD diminuiu 30%. De 1991 a 2001 ocorreu uma diminuição de 22,5% no grupo etário dos jovens e um aumento de 7% no grupo dos idosos. Esta realidade tem implicações directas na disponibilidade de mão-de-obra e por conseguinte, na necessidade de mecanização dos vinhedos. Essa necessidade de mecanização teve como consequência uma profunda alteração nas técnicas de sistematização e armação dos terrenos localizados em vertentes. Os estudos edafo-climáticos além de contribuírem para o melhor conhecimento das condições de produção das vinhas permitem-nos também compreender a actuação dos processos morfogenéticos responsáveis pelos fenómenos de erosão acelerada, nomeadamente, erosão hídrica e movimentos em massa, pelo que partimos para a elaboração deste trabalho com o intuito de desenvolver um estudo sobre erosão hídrica dos solos em vinhas localizadas em vertentes com diferentes sistemas de armação dos terrenos. Sem ter a veleidade de pretender demonstrar, cabalmente, as relações de causalidade entre técnicas modernas de armação dos terrenos e a degradação ambiental daí resultante (erosão acelerada), parece-nos que o conjunto de factos e coincidências que fomos reunindo ao longo deste trabalho ajudaram-no a clarificá-lo.
Um aspecto central que nos acompanhou ao longo deste trabalho é o impacto das novas formas de armação da vinha nas vertentes da Região Demarcada do Douro. Se as vinhas tradicionais reflectem uma excelente adaptação do Homem a esse território, as vinhas mais recentes não parecem ser um bom exemplo de ordenamento tendo-se quebrado o equilíbrio entre a secular ocupação humana e as condições edafo-climáticas existentes.
Solos esqueléticos e vertentes abruptas são por si só características repulsivas à actividade agrícola. Sem agricultura, o povoamento de todo o vale do Douro seria bem diferente daquele que hoje conhecemos, pelo que poderíamos apenas referenciar os riscos climático-hidrológicos como principais susceptibilidades. A história da evolução da ocupação das vertentes é por isso fundamental para compreendermos não só a actual paisagem duriense, mas também as vulnerabilidades a que as populações desta região estão sujeitas. Do ponto de vista geomorfológico, as novas técnicas de armação da vinha que foram recentemente introduzidas caracterizam-se essencialmente, pelas grandes alterações antrópicas ao perfil original das vertentes, pelos taludes de terra sem muro de protecção e por ineficientes sistemas de drenagem. Estas características, juntamente com outros factores condicionantes e desencadeantes, potenciam os processos de erosão acelerada, nomeadamente a erosão hídrica e os movimentos em massa, pelo que podemos referir que estamos actualmente perante uma região especialmente exposta a um risco geomorfológico (Figura 60). Como consequência, confrontamo-nos com uma degradação definitiva do potencial ecológico - nomeadamente com a degradação do recurso natural solo (risco ambiental), numa Região onde a agricultura é a principal actividade económica. Além disso, a instabilidade das vertentes aumentou, verificando-se inúmeros movimentos em massa que além de destruírem vias de comunicação e habitações, provocando por vezes mortes, acarretam graves prejuízos económicos ao Estado e aos privados.
Apesar do risco geomorfológico (risco natural), na sua origem, estar intimamente ligado às alterações antrópicas das vertentes (factor condicionante), são as condições do clima e dos estados de tempo, que desencadeiam todos os processos de erosão hídrica e movimentos em massa, pelo que parece fazer sentido, continuarmos a falar de riscos naturais. Contudo, decidimos incluir no esquema apresentado, o uso e ocupação do solo (risco antrópico).
A recente classificação, por parte da UNESCO, de uma parte significativa da Região Demarcada do Douro como Património da Humanidade veio acrescentar a esta complexa relação de riscos, a existência de um risco cultural. Esta região tornou-se numa herança da longa luta contra os obstáculos naturais e num significativo contributo do povo português para o enriquecimento da cultura mundial. A sua preservação é mais do que nunca uma obrigação, pois deixou exclusivamente de nos pertencer. É necessário fazer a manutenção de todos os muros e de todos os sistemas de drenagem e evitar que vinhas novas, com armações do terreno modernas, substituam as vinhas tradicionais. A paisagem que chegou até nós deve perdurar para as gerações futuras.
Mas além dos riscos geomorfológicos estarem na ordem do dia, não podemos omitir as cheias, que apesar das tentativas de regularização do caudal do rio Douro através da construção de várias barragens, continuam e com uma grande frequência, a colocar em perigo as populações que habitam as suas margens.
Neste contexto, de diferentes riscos, não podemos deixar de considerar a Região Demarcada do Douro como uma unidade espacial particularmente vulnerável aos processos de erosão acelerada, que por sua vez potenciam outros riscos naturais e antrópicos.
Fernando Rebelo (2001, p.252) refere que “a convergência num local ou numa região de dois ou mais riscos, que até podem vir a manifestar-se ao mesmo tempo, originando crises complexas, leva a que a esse local ou região se dê o nome de bacia de riscos”. Por conseguinte, podemos considerar a Região Demarcada do Douro, a par da bacia de riscos de Lisboa ou do Funchal, como mais uma bacia de riscos.
O desenvolvimento da actividade intelectual do Homem, ao longo da história da Humanidade, levou à elaboração de uma Cultura cada vez mais vasta e diversificada que lhe permitiu modificar e até mesmo perturbar, a natureza. Este impacte negativo no meio natural está directamente relacionado com a falta de controlo dos factores sócio-económicos e do progresso técnico. Em algumas regiões do mundo, como o continente africano, a ocorrência de catástrofes naturais, e não só estas, está de certo modo endogeneizada, aparecendo como algo inevitável, como que um desígnio da natureza, pelo que a falta de cultura das catástrofes constitui um elemento de agravamento do nível de risco (GARRIDO, Carlos; 1999). A gestão dos riscos, pressupõe assim a existência de instituições preparadas para o efeito, recursos económicos, vontade política e sobretudo uma cultura do risco por parte da generalidade dos elementos da sociedade.
Já tivemos a oportunidade de aludir, que o termo risco implica não só a ideia de perigo e destruição, mas também as ideias de opção, prudência e responsabilidade (GIDDENS, A.; 1999), infelizmente, só muito recentemente os riscos naturais deixaram de ser vistos como eventos geofísicos isolados, ou seja, separados das sociedades que ocupam e transformam o território em que vivem, pelo que não podemos continuar a culpar exclusivamente a natureza por todas as catástrofes ambientais e pela crescente vulnerabilidade humana perante as mesmas. É neste sentido que afirmamos que os riscos naturais são também um produto da sociedade, do contexto político e económico, logo, à dinâmica do meio natural devemos associar as intervenções desajustadas do Homem, que ao introduzir alterações no meio natural potencia o desencadear de acidentes e agrava a magnitude das suas consequências. O risco está assim presente a partir do momento em que o Homem altera o equilíbrio natural, pelo que o factor de risco mais importante é o próprio Homem.
A Região Demarcada do Douro não é excepção, seja pela opção das novas formas de sistematização e armação dos terrenos agrícolas em vertentes, seja pelas opções de localização de infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias e até mesmo de habitações, a vulnerabilidade das populações durienses aos riscos geomorfológicos e hidrológicos tem vindo a aumentar. Os últimos 15 anos são disso um bom exemplo (Quadro 34, p.113).
Na Região Demarcada do Douro, trava-se actualmente um “conflito” entre modernidade e tradição. Modernidade no que concerne à utilização de técnicas agrícolas modernas de modo a maximizar produtividade e rendimentos, e tradição no que diz respeito à manutenção de um património cultural e arquitectónico inestimável representados pela tipicidade da paisagem vitícola duriense. Segundo BIANCHI DE AGUIAR (2002; p.146), a justificação da candidatura Alto Douro Vinhateiro a Património da Humanidade, centrou-se nos seguintes aspectos:

 Carácter único da relação do Homem com a natureza, numa situação de escassez e adversidade dos elementos naturais – a água, o solo e as vertentes íngremes;
 Carácter sábio desta relação, resultado de um conhecimento profundo das culturas mediterrâneas e da sua adaptação à escassez e adversidade dos elementos naturais onde a vinha é a cultura por excelência em associação com a oliveira e a amendoeira;
 Exemplo significativo de uma paisagem ilustrativa de diversos períodos da história humana. Testemunha modos de organização da vinha de diferentes épocas históricas que evoluíram em função do surgimento de novas tecnologias, mas mantendo uma forte identidade e reflectindo saberes, técnicas, costumes, rituais e crenças tradicionais das populações locais e, por último;
 A diversidade e a riqueza da sua arquitectura vernacular.

Todavia, apesar da existência de um consenso generalizado da parte dos principais agentes políticos e económicos sobre a importância da manutenção da paisagem tradicional como mais-valia para a economia de toda a região , a reestruturação e manutenção das vinhas tradicionais não tem sido feita, na maioria das vezes, nesse sentido. Do ponto de vista sócio-económico, a actual situação agrária da RDD parece insistir numa estratégia bimodal, encorajando o crescimento de um subsector agrícola moderno e comercial, baseado em grandes empresas e na utilização de tecnologias de capital intensivo, e ignorando/marginalizando o subsector dito tradicional e de subsistência (CRISTÓVÃO, A.; 1999, p.21).
Nas técnicas tradicionais de sistematização e armação dos terrenos, nunca houve ruptura de equilíbrio, mas um aperfeiçoamento gradual no sentido de responder a necessidades económicas e a um equilíbrio entre actividades antrópicas e condições naturais. Actualmente, as mudanças introduzidas começam a manifestar desequilíbrios que não são compreendidos nem aceites pelos sectores económico e político. Ou seja, não se reconhece a intervenção humana como principal factor de risco. Em 2001, perante uma situação alarmante resultante de inúmeros eventos “extremos” que estavam a ocorrer um pouco por toda a RDD, podia ler-se no jornal A Voz de Trás-os-Montes (1 Fevereiro de 2001): “Patamares no Douro vão continuar. Apesar da destruição de muitos terraços na Região Demarcada do Douro, devido ao mau tempo, e que deram origem a elevados prejuízos no sector vitícola os patamares vão continuar a ser implantados na instalação de novas vinhas (…). Na opinião de técnicos, não é por ter existido meses de muita pluviosidade, um caso esporádico e cíclico, que se vai modificar radicalmente, todo o processo da disposição dos terrenos destinados à plantação da vinha”. Nesta observação, está patente que quanto maior é a exposição ao risco maior é a tendência para desvalorizar o risco.
Não faz parte dos objectivos deste trabalho encontrar uma panaceia que resolva todos os problemas da RDD. Contudo, podemos avançar com algumas estratégias de conservação e recuperação do recurso natural solo de forma a minimizar as perdas por erosão hídrica e, por conseguinte, contribuir para o planeamento físico da Região.
Indo de encontro aos princípios da Carta Europeia do Solo (1972) e tendo em conta as políticas de Protecção do Solo, propostas por HOWARD et al, 1989, (citado por COELHO C., 1992), qualquer estratégia de conservação deve ter em conta obrigatoriamente a caracterização dos solos e a avaliação do seu estado corrente; a monitorização das mudanças nas características e propriedades do solo ao longo do tempo; a avaliação dos impactos das actividades humanas e/ou as alterações na gestão e uso do solo; a definição da capacidade de carga aceitáveis associada às actividades do homem e a definição dos meios de as controlar; e, o desenvolvimento de formas alternativas de gestão e técnicas para reduzir o impacto das actividades do homem sobre o solo.
Mas antes de avançar com quaisquer políticas de conservação, o primeiro passo para uma correcta gestão dos problemas relacionados com os processos erosivos na RDD é a aceitação social e política de que existe de facto um problema ambiental (erosão dos solos). Enquanto os agricultores, instituições ligadas ao sector vitícola e instituições governamentais não aceitarem a erosão dos solos da RDD como um verdadeiro problema, qualquer tentativa de resposta para uma adequada gestão ambiental será infrutífera. A consciencialização é o primeiro passo na gestão do risco.
Mas os actuais problemas ambientais da RDD, não se resumem à degradação dos solos (erosão laminar, ravinamentos e movimentos em massa), como consequência do uso de técnicas agrícolas inadequadas. Na construção de novos vinhedos, os habitats naturais são também destruídos e consequentemente verifica-se uma diminuição da biodiversidade animal e vegetal em virtude do crescente recurso ao monocultivo. Além disso, as áreas de cultivo são maiores o que vai contribuir para o consumo excessivo de energias não renováveis, devido à crescente mecanização.
De uma forma geral, podemos sintetizar as linhas gerais de acção de todo o processo de gestão do risco na “utilização dos recursos na perspectiva do desenvolvimentos local, regional e nacional; na preservação do património natural, fundamental para uma melhoria da qualidade de vida das populações; [e na] sensibilização dos cidadãos para a necessidade de uma exploração racional e não imediatista dos recursos naturais” (SOARES, L. et al., 2001, p.103).
Mais especificamente, o uso do solo deve ser efectuado tendo em conta a sustentabilidade do mesmo.
 A construção de novas vinhas:

• Deve ser rigorosamente acompanhada por um técnico especializado que seleccione a técnica de armação do terreno mais adequada a cada vertente;
• No caso das vinhas em patamares, os limites da largura e comprimento dos terraços bem como da altura dos taludes devem ter em conta os declives das vertentes. Os limites propostos por BIANCHI DE AGUIAR (1987), embora não tenham ainda sido refutados, carecem de uma revisão e estudos experimentais mais aprofundados, pelo que se propõe uma discussão e melhoramento dos mesmos;
• Os taludes das vinhas em patamares devem ser protegidos através de vegetação espontânea (devidamente controlada) ;
• Nas vinhas “ao alto”, as técnicas de sistematização dos terrenos também devem ter em conta os declives da vertente e a cobertura pedregosa existente à superfície;
• Sempre que possível, deve adicionar-se matéria orgânica aos solos;
• Os sistemas de drenagem das vinhas devem ser correctamente construídos tendo em conta a natureza de cada vertente e o respeito pelas linhas de água existentes, devendo também ser dimensionados para episódios pluviosos extremos.

 Na reestruturação e/ou manutenção das vinhas tradicionais:

• Os sistemas de drenagem não devem ser obstruídos, destruídos e/ou substituídos;
• Os muros de pedra existentes devem ser sujeitos a manutenções periódicas, dependendo do seu estado de conservação;
• A introdução da mecanização nas vinhas tradicionais deve ser realizada cuidadosamente, pelo que se propõe em primeiro lugar, a escolha de maquinaria adequada ás condições de circulação apresentadas pela vinha e não a exclusiva adaptação da vinha à máquina previamente escolhida.

Pelo conjunto de ideias apresentadas, podemos depreender que estamos ainda no início de uma caminhada com muitos desafios. É um problema complexo, que para a sua resolução terá impreterivelmente de haver um “compromisso entre modernidade e tradição, de modo a ser preservada a memória colectiva e o equilíbrio entre as pessoas e o meio envolvente” (CRISTÓVÃO, A.; 1999).

A Região Demarcada do Douro tem sido, ao longo dos anos, objecto de inúmeras investigações de carácter técnico-científico nos mais variados campos da ciência.
A erosão hídrica dos solos é apenas mais um dos inúmeros problemas que têm vindo a afectar toda a região vitícola. Embora realizadas num contexto de precipitações reduzidas, os resultados obtidos com as experiências de campo, demonstram que há de facto um impacto negativo de origem antrópica que justifica a continuação e desenvolvimento de novos estudos.
Neste sentido, pensamos que é necessário desenvolver mais investigações para se quantificar a erosão hídrica em vinhas com diferentes formas de armação dos terrenos. Essas experiências deverão ser realizadas durante um período mais prolongado de tempo, em todas as sub-regiões da RDD, utilizando se possível, novas metodologias.
Não menos pertinente será o estudo pormenorizado das argilas, fracção que compreende partículas de dimensão coloidal, de forma a estudar o limite de plasticidade dos solos e compreender melhor o impacto da erosão hídrica na fertilidade dos mesmos. Falta ainda conhecer pormenorizadamente a importância da cobertura pedregosa dos solos no sentido de compreender melhor o valor do conhecimento ancestral das populações autóctones na protecção dos solos, e combinar estes conhecimentos com as tecnologias agrícolas modernas. Nas vinhas tradicionais seria igualmente indispensável estudar o comportamento da escorrência sub-superficial das vertentes.
Como consequência da erosão hídrica, seria conveniente proceder a investigações no sentido de conhecer o impacto do aumento da deposição de sedimentos no leito dos cursos de água, sobretudo no rio Douro, pois poderá haver uma relação directa entre esse fenómeno e a intensificação das consequências das cheias nas povoações ribeirinhas.
Depois de mais de vinte anos de experiências com as novas formas de armação das vinhas, pensamos ter chegado o momento de avaliar globalmente o seu impacto sob uma perspectiva de desenvolvimento sustentado. É o futuro da mais singular de todas as paisagens humanizadas de Portugal que está em risco. “O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. (…) Um poema geológico. A beleza absoluta», como um dia escreveu Miguel Torga.

Anonymous said...

Só li o abstract. Mto Bom. O que é que entendes por vinhas normais? Qual é o declive ideal para uma vinha? Grande abraço.
(Filipe Carapinhas)

Márcio Martins said...

Não um conceito para vinhas normais. todas as vinhas são normais. Na RDD existem vinhas tradicionais e vinhas modernas, mas todas são normais.
Não existe também um declive ideal e universal para vinhas. Cada tipo de armação deve ser adaptada à vertente onde vais ser instalada a vinha. Contudo, existem limiares máximos para cada tipo de armação: por exemplo, para a vinha "ao alto", a vertente onde se instalar pode ter declives da ordem dos 70%. Mas em Portugal não existem vinhas ao "alto" instaladas nesses declives, porque a mecanização não seria possível. Na Alemanha já existem, porque eles utilização máquinas com um sistema de guincho que evita acidentes. Quanto a vinhas em patamares, podem ir até declives maiores, mas com perda de área cultivada, porque os taludes vão ser muito altos e os patamares muito estreitos. Portanto, e concluindo, cada vinha deve ser construída e adpatada a cada vertente.
Obrigado pela atenção,
Márcio